Filho de coração, não de sangue

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Olá Mamães Toda Hora, tudo bem com vocês? Esperamos que sim.

Depois de um tempinho “escondidos”, voltamos para contribuir com outra postagem no blog. O assunto de hoje pode ser considerado complicado de se abordar, pois trata da questão de contar ao seu filho adotado que ele não é um “filho de sangue”, mas filho de “coração”. Como fazer isso? Quando fazer isso? Devemos fazer isso?

Complicado, hein…?

Bom, em primeiro lugar quero que vocês entendam que eu vou publicar o meu ponto de vista como filho, e todas as experiências que vivenciei… Sim, eu sou adotado… acho que já havia mencionado anteriormente, enfim…

Entendo também que cada caso é um caso distinto, e não poderia opinar sobre outras situações sem conhecer toda história de uma família que resolve adotar uma criança e tudo mais o que isso possa implicar, por isso, o que você vai ler agora é um relato real de como esta questão aconteceu comigo e com a minha família. Espero que vocês gostem!

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Seu filho é adotado… Quando falar isto para ele?

Ainda lembro daquele sábado que chegaram para me buscar no orfanato, como diria a música: “Sábado de sol”, 12 de janeiro de 1980. No pátio estacionou um Corcel II branco e saíram de dentro dele meu pai, minha mãe e minha irmã (que acabou virando irmãe mais tarde). Provavelmente meu irmão não estivesse junto porque não caberia todo mundo na volta ou, por causa de algum compromisso com os escoteiros talvez…nunca me preocupei em perguntar…

Em flashs de lembranças de momentos anteriores aquele, lembro-me apenas de duas outras tentativas que não deram certo. Talvez os motivos tenham sido bloqueados internamente da memória como forma de proteger um pequeno menino de três anos e meio que não entendia direito o que estava acontecendo… Recordo também que passados alguns dias, nestas experiências negativas, eu sempre queria voltar para o orfanato. Lembro também de momentos solitários, em que recostava a cabeça em uma janela envidraçada com pingos de chuva deslizantes e com um sentimento ruim por dentro… Em ambas acabei voltando.

Mas por algum motivo (depois, descobri que o nome do motivo era amor!), daquela vez eu não quis voltar, a viagem transcorreu tranquila, com minha irmã brincando comigo quando o carro fazia as curvas da estrada sinuosa, ao longo de aproximadamente trinta quilômetros, que era a distância que nos separava. Nas primeiras horas daquele sábado ainda chamava eles de tio e tia…mas insistiam para que os chamassem de pai, mãe, mana e mano… e logo virou rotina… fácil de se fazer.

Lembro que depois de muito tempo (meses depois), depois de ver um filme triste que passam nos domingos de tarde, onde um ursinho filhote perde seus pais e acaba ficando sozinho, se junta a outro bichinho e vivem aventuras juntos na maior parte do tempo, mas que acaba sendo levado pela correnteza de um rio para longe, sendo que nunca mais voltariam a se ver novamente, pedi que me levassem de volta para o orfanato. Meus pais se entreolharam e perguntaram o motivo daquilo, porque me disseram se eu apresentasse um motivo plausível para isso, então me levariam de volta (e ele acreditou… hehehe). Pensei, pensei e eu não soube responder…logo, continuei com eles…e depois desse momento nunca mais quis voltar para o orfanato.

Todos os membros de minha nova família sempre foram muito claros comigo, conversando abertamente que eu era adotado, mostrando na prática, com atos, palavras e atitudes, que isso não fazia diferença nenhuma, pois todos éramos uma mesma família, a diferença era apenas que eu era filho de coração, não de sangue, e que fui registrado como filho legítimo, não apenas no papel, mas em qualquer momento da nossa relação.

Vou relatar três fatos que ocorreram e contribuíram muito para que eu acredite que esta informação deve ser dada logo no começo da relação, de uma maneira muito transparente e da forma mais natural possível, sem que coisa alguma seja escondida do filho adotado.

Primeiro fato: Nunca fique falando para uma criança algo que ela não possa repetir em público, sob pena de você passar vergonha…

Este relato mostra bem a dificuldade que é para uma criança de três anos entender ideias ambíguas.

Meu pai tinha uma oficina contígua a nossa casa, então toda vez que eu não estava na aula, perambulava pela oficina brincando, mexendo, descobrindo… Um dia, um dos clientes antigos de meu pai viu que havia este guri por ali, e ele não estava reconhecendo, normalmente não o vira anteriormente, e ele se movimentava muito à vontade na oficina. A sua curiosidade sobre quem era o pequeno levou-o a perguntar para meu pai: “De quem é este menino?”

Meu pai, as voltas com seu trabalho, responde apenas: “Este aí é meu…é o mais novo…rapa do tacho…” A indagação do cliente continuou: “Mas é teu? Não sabia… Mas o que houve que ele saiu tão pretinho?”. Então meu pai ouviu eu responder o que ele costumeiramente falava para mim, quando eu fazia esta pergunta para ele, no âmbito, digamos, familiar… Respondi para o cliente automaticamente: “É que a minha mãe se assustou de um toco preto quando estava grávida…”

Não preciso dizer que tanto meu pai, quanto o cliente não sabiam onde se esconder, com tamanha sinceridade infante.

Segundo fato: Pessoas que não conhecem o íntimo de sua família notam que há algo “diferente no ar”…

Já estava no segundo grau (ok…eu sei que isto denuncia minha idade… porque todos meus alunos só conhecem ensino fundamental e médio…) e a coordenadora pedagógica do colégio  chamara meus pais para conhecê-los melhor, nada de mais, apenas um bate papo. Assim que chegaram no colégio, enxerguei-os entrando, pois estava na quadra de futebol praticando educação física. Então pedi licença para o professor para ir até onde estavam e cumprimentá-los, meus colegas perguntaram então, “Onde estão teus pais?”. Respondi, apontando para onde estavam aguardando e, em coro quase que uníssono os colegas respondem, “Bem capaz que são teus pais…eles são muito branquinhos para serem teus pais…” Me diverti bastante, porque eles me conheciam bem, mas não sabiam deste detalhe.

Terceiro fato: Pessoas que conhecem o íntimo de sua família não notam que há algo “diferente no ar”…

Reunião de família no final do ano, há uns três anos atrás, minha sobrinha (que atualmente tem 27 anos) me puxa num canto e pergunta: “Porque tu nunca nos disseste que era adotado?”. Respondo tranquilamente, “Porque vocês nunca me perguntaram…” Achei estranho o fato e também nunca tinha me dado conta disso, mas os meus próprios sobrinhos (cinco deste lado da família) nunca haviam se dado conta que eu era adotado, inclusive, nunca cogitaram uma hipótese destas. Conclui que para eles, em nenhum momento de suas vidas, aconteceu algo para que pensassem que eu era diferente de seus pais (meu irmão e minha irmã), e o mais legal é que isto nunca foi escondido… Vejam que as atitudes falam mais alto que as palavras.

Estas são algumas das razões porque acredito que a verdade deve prevalecer sempre, pois o amor acaba superando possíveis dificuldades, e o fato de ser filho de coração não faz diferença alguma para os pais e a família que resolve tomar uma atitude tão louvável quanto esta adotar um órfão, dando a ele uma chance de um recomeço. E um dos papéis dos papais e mamães é ensinar seus filhos a não contar mentiras, logo, como começar uma relação baseando-se numa mentira, ou numa falta de verdade?

Para encerrar deixo um link de um vídeo que eu vi esta semana e relata uma situação similar a esta…

E vocês Mamães Toda Hora, tem algo para compartilhar conosco sobre este tema??? Sintam-se à vontade em nos contar suas experiências.

Um beijão a todas vocês!!

Comentários (15)

  1. Karine Pertile

    Demais este blog. Adorei a coluna de hoje. Se penso em ser mãe? Sim! Se penso em engravidar? Não!
    Muito bom ler sobre o assunto adoção de uma forma tão tranquila e cheia de amor.
    Parabéns a todos os pais “de coração”! Por mais posts como esse!

    Reply
    1. admin (Post author)

      Obrigado pelas palavras Karine. Realmente a adoção é um assunto complexo, mas como eu disse, deixando que o amor seja maior que as circunstâncias, a relação será muito especial. Um abração.

      Reply
  2. JEAN HUGO CALLEGARI

    Meu GRANDE amigo, sempre te admirei, e sutilmente “Invejei”.. MAs uma inveja “saudável”, se é que isso existe. Admiro, então. Pra mim, tu era “o dos LEGO”, e fostes fundamental na minha caminhada de stricto. Tua alegria com os “robozinhos” me contagiou.
    Bem, se é bom ou ruim, preciso de uma autorização tua, pq te cito indiretamente trocentas vezes na minha escrita: “um colega de IES”, “um amigo”, e assim vai..
    A “Brima”, nem falo. Admiro pra Ka… Ops, não posso..
    Sinto falta de nossas “filosofadas”…
    Abrassons do Zan…

    Reply
    1. admin (Post author)

      Oi Jean,
      obrigado pelas palavras e os momentos de “piração” com nosso jeitão de encarar a relação ensino e aprendizagem.

      Reply
      1. JEAN HUGO CALLEGARI

        É uma pena que nem todos compreendam estas nossas “pirações”, prá lá de saudáveis…
        Abraços

        Reply
    2. Karine Callegari

      “Brimo”! Fico muito feliz que o Cara lá de Cima nos reaproximou novamente! A admiração é reciproca. Saudades imensas! Beijos

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      1. JEAN HUGO CALLEGARI

        Brima querida. ELE é sábio e compreende os “prazos” melhor que nós..

        Reply
        1. Karine Callegari

          É vero!

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  3. Candida Redante

    Que lindo!!! Lindo depoimento! Inspirador …,

    Reply
    1. admin (Post author)

      Obrigado Cândida. Às vezes, sem nos darmos conta disso, nosso cotidiano pode ser a inspiração para outros…
      Acredito que o segredo das coisas da vida está na simplicidade com que as conduzimos.
      Um abração.

      Reply
  4. Suzi Boeira Salomon

    Oi mano! Talvez não lembres mas um pouco antes do “evento do susto da mãe”, e também na oficina, perguntastes ao pai quem eram os “outros pais” do teu amigo Caco. Ele te respondeu que algumas vezes nascemos numa casa e permanecemos nela e outras vezes mudamos de casa, como tu o fizestes. Com aquela tua cara de “intelectual” pensas um pouco e fala: “Então eu nasci aqui de novo, né pai??”. Acho que isto resume tudo: de uma forma diferente ou, como falamos, por outra porta, entrastes nesta família nos trazendo a luz que um (re)nascimento possui, o brilho que cada filho consegue trazer para nossas vidas!! Beijão.

    Reply
    1. Jonita Consul Torres

      Texto lindo , e sou testemunha de como a minha amiga Suzi tem orgulho desse irmão!!! Família linda!!!

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    2. Karine Callegari

      Nossa Suzi!!!
      Muito lindo tudo isso!
      Parabéns a esta família linda!

      Reply
  5. Rita Silva

    Querido me emocionem muito!! Lembro tanto de ti!! Quando era pequeno e depois se tornando adulto!!

    Lindo o que escrevestes!! Tens país e irmãos e sobrinhos que te amam muito!!
    És especial !
    Vou acompanhar de perto!!!
    Beijos aos teus filhos e esposa!
    Abraço do tamanho do mundo!!

    Reply
    1. admin (Post author)

      Olá Rita querida!!!
      Que bom te “escutar” novamente… apesar de um oceano inteiro de distância, saber que as lembranças ainda estão tatuadas em sua memória, sempre nos deixa feliz.
      Um beijão para você e para o queridão do Márcio!

      Reply

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